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O agro é um presente para o futuro do Brasil

Era uma vez uma enorme gleba de terra no Novo Mundo, com habitantes nus, uma densa e caórdica vegetação tropical, clima quente e constante e uma infinidade de tipos de criaturas coloridas, estranhas e exóticas que hoje chamamos de biodiversidade…nesse lugar a palavra TERRA tinha um sentido mais amplo e profundo, expondo a força que forjou o planeta e seus habitantes de maneira bem mais complexa e intensa do que nas previsíveis, geométricas e frias pradarias do “velho mundo”, no hemisfério norte. Também aqui, se percebeu que, “em se plantando, tudo dá”.

O Brasil é AGRO desde sempre, mesmo antes da “descoberta”, quando várias etnias indígenas desenvolviam suas práticas agroflorestais, moldando a atual “floresta virgem” que ainda sobra, sobretudo na Amazônia. Depois, na versão ocidental-cartesiana, liderada pelos portugueses, caboclos e outros brasileiros, inclusive os migrados de outras paragens europeias e asiáticas, na forma da exploração do pau-brasil, das drogas do sertão, da caça e da pesca, mais adiante pelos cultivos das monoculturas exportadoras da cana de açucar e do café, passando pela pecuária extensiva difundida pelo Movimento das Bandeiras e outras peregrinações interioranas e a formação dos cinturões verdes ao redor dos maiores entrepostos e aglomerações urbanas que se formavam, produzindo frutas, legumes, verduras, temperos, fibras e outras “utilidades” ao sedentarismo mais estrutural que ia acontecendo.

Com a industrialização acentuada e valorizada desde os anos 1930, quando a crise de 1929 nos ensinou que nem só de café vive o mundo e o crescimento em importância, real e imaginária, da vida “civilizada” das cidades, veio a ascensão da nossa faceta moderna e urbanoide. Desse script fazia parte menosprezar a vida no campo e as atividades rurais, criando a obtusa impressão de que quanto mais perto nossas mãos (e pés) estivessem da terra, mais subdesenvolvidos seríamos. Com isso, nossa afluente casta cafeeira, orgulhosa de suas fazendas e círculos interioranos, foi substituída por uma burguesia industrial que renegava nossa origem “terrena” e rural. E a nossa agricultura, assim como a nossa pecuária, ficaram relegadas à margem da economia e da sociedade. Não notamos que o campo nos abastecia na fase empresarial do país, assim como nos financiava pela exportação de alguns gêneros como a borracha e o café, por exemplo, além de colocar nossa comida na prateleira e na mesa.

Nos anos sessenta e setenta começou a ficar evidente que o mundo iria precisar produzir muito mais alimento e que o Brasil era um dos únicos pedaços grandes e férteis de terra, em latitudes amenas que poderiam comportar um crescimento exponencial na produção agropecuária e assim nasceu esse termo que juntava a agricultura e a pecuária e que mais tarde chamaríamos prestigiosamente de agronegócio com a integração, na cadeia de valor do AGRO, da indústria alimentícia e da indústria têxtil. Os japoneses (planejamento, muita gente, pouca terra, muita ciência e bastante capital) resolveram propor uma parceria ao Brasil (caos, pouca gente, muita terra, pouca ciência e pouco capital) para transformar o centro-oeste num celeiro global de cereais (especialmente a soja, um “novo” grão oriental) e para alimentar o Japão que era a “China da época”. Mais tarde eles resolveram “sair” do cerrado, por questões conjunturais do país (estagnação econômica acolá, embora ricos) e deixaram parte do legado que alavancou o que assistimos hoje na pujança do AGRO de grãos, algodão e outros nessa enorme região do país.

O AGRO dos movimentos históricos abordados acima e seu “crescimento vegetativo” continuado pela cana e pelo café no nordeste e no sudeste, foi se somando à agricultura familiar que já crescia há muitas décadas no sul do país, por herança cultural dos imigrantes europeus (alemães, italianos, etc.) e que, mais tarde, depois de colonizar agrariamente toda a sua pequena região, migrou novamente, mas dentro do país, para a “abertura” do centro-oeste, iniciada pelo incentivo dos japoneses e do Governo federal que subsidiaram a ocupação produtiva das fronteiras agrícolas, formando um boom silencioso de produtores-empreendedores e suas fazendas pelo interior, especialmente nos quadrantes do cerrado (o que, aliás, contribuiu para uma degradação acentuada desse bioma menos carismático que seu “primo” amazônico).

Essa AGRO-epopéia brasileira foi se consolidando a partir da década de oitenta, por si só, nos quatro cantos do país, dessa vez apoiados por políticas mais regionais e, sobretudo, pelo espírito empreendedor, o amor à terra e o profundo conhecimento, por parte do agricultor e do pecuarista, dessa terra. Nesses últimos quarenta anos o setor se desenvolveu, se profissionalizou e se consolidou em muitos segmentos, aproveitando a fragilidade de seus concorrentes frente a doença da “vaca louca” no Reino Unido, às políticas nacionais americanas que muitas vezes prejudicaram os produtores daquele país, ao clima difícil na Austrália, aos conflitos internos da União Européia, etc. e fortaleceu seus pontos fortes na ciência e tecnologia junto à Embrapa e extensões rurais acadêmicas país afora, no ganho de produtividade constante, no desenvolvimento de variedades tropicais, no aproveitamento inteligente da disponibilidade de terras degradadas aproveitáveis, na produção sustentável (suprimindo gradativamente o desmatamento excessivo, embora com impacto crescente no cerrado) e na compreensão da importância dos serviços ambientais pluviométricos e climáticos para a interdependência entre os ecossistemas e as lavouras, implicitamente, pela convivência com a terra, mas também nos laboratórios. O setor tem crescido em importância como polo de desenvolvimento internamente, frente aos outros setores e tem crescido em importância globalmente, por uma série de fatores. E a associação entre estas frentes externas e internas traz uma enorme oportunidade para o Brasil. Vejamos.

Hoje, em meio a crise de saúde pública do coronavírus, com o caos humano e econômico em que estamos vivendo, não enxergamos desabastecimento de alimentos e outros gêneros agropecuários nos supermercados brasileiros, nosso AGRO está em pleno funcionamento e isso não é trivial. Para completar o quadro, nosso comércio exterior também flui bem graças aos embarques da nossa produção de alimentos, ou seja, ao AGRO, uma outra exceção na pandemia. Está por trás disso um setor forte e organizado, acostumado a grandes demandas, surpreendentes ofertas e a resiliência necessária para sobreviver como negócio em um país como o nosso. Hoje em dia o AGRO produz cerca de 22% do nosso PIB (e crescente) e responde por mais de 50% do superávit de nossa balança de comércio exterior, numa ascensão progressiva e relativamente estável, ano a ano, em uma economia errática e sensível demais à política, como a nossa, onde a maioria dos outros setores titubeiam numa realidade muito mais volátil. O setor além de sólido numa economia estruturalmente flácida vem se desenvolvendo com base científica e identidade cultural, se firmando como “de ponta”, dos mais competitivos e brasileiro “da gema”. Com menos de um décimo de suas terras utilizadas na agricultura, o país já é um dos maiores produtores e exportadores da maioria dos cultivares globais e com as maiores produtividades. A perspectiva é enorme, sólida e real, seja pelo ponto de vista dos produtores, da Embrapa ou pela percepção oficial da FAO. Mas os brasileiros não sabem disso, não internalizaram o fato com a profundidade que ele tem.

Então vamos à informação, à reflexão sobre os dados e à ponderação estratégica. O Brasil é o quinto maior país do mundo com 850.000.000 de hectares (cada hectare equivale a um campo de futebol) e é o de maior área agriculturável (real e potencial) do planeta, pela extensão territorial, natureza do solo e latitude climática. Apesar de estar caminhando para ser o maior produtor e maior exportador de (quase) todos os principais gêneros agropecuários do globo, é o único dos grandes produtores que preserva 2/3 de seus biomas (incluindo cerca de 83% da Amazônia), ao lado da Rússia que “preserva” sua enorme floresta siberiana, especialmente porque nada humanamente comestível cresceria por lá. Mesmo sendo o de maior área potencial, nós temos crescido basicamente em produtividade (386%) e não na extensão da área utilizada (33%) nas últimas décadas, o que significa eficiência econômica, científica e ambiental, leia-se sustentabilidade estrutural. Como utilizamos apenas 9% para a agricultura e dos 30% que utilizamos para a pecuária, a maior parte é pastagem degradada sem uso ou com mal uso produtivo, temos espaço para, tanto melhorar a produtividade da criação de animais (o que está acontecendo) quanto para adicionar parte dessa área à nossa agricultura produtiva e sustentável sem derrubar nenhuma árvore a mais. Ou seja, somos os únicos do planeta que temos condição de aumentar substancialmente a produção de alimentos e materiais AGRO, de maneira sustentável. Nada mal para uma sociedade rural resiliente que manteve sua conexão com a terra brasileira nos últimos 520 anos, mesmo não sendo reconhecida na cidade que vê o AGRO como um setor atrasado, produtor de commodities e sem nenhuma ciência ou consciência ambiental por trás. Uma grande injustiça e uma chance perdida de se orgulhar de algo realmente brasileiro e de altíssimo valor agregado, científico e ambiental.

O AGRO é a atividade produtiva mais antiga e rica da sociedade brasileira, ele traz muita experiência sobre a lida e o cultivo e também sobre o conhecimento da terra, da biodiversidade, do clima e dos serviços ambientais. Em várias regiões e biomas e ao longo de várias épocas tecnológicas e sociais, se tornou um know how profundo e consolidado dos brasileiros. Além disso nos tornamos os grandes desse segmento fundamental para a humanidade, desde sempre e ainda mais agora e no futuro. Temos escala, ciência e uma estrutura de pesquisa bastante avançada e eficiente. E o Homo agrarius brasiliensis, o resiliente e sábio homem do campo brasileiro, do mais humilde plantador sertanejo aos empresários rurais que sairam do conforto do sul para brilhar no interior da Bahia ou mesmo do Piauí, é o responsável por isso. Construimos tudo empiricamente, com muitos erros e acertos, mas que acabaram por preservar mais de 60% da nossa natureza. Aprendemos a valorizar e nos beneficiar dos nossos ativos naturais e agora o mundo depende de nós para a segurança alimentar, além da segurança climática com o sequestro de carbono dos nossos ecossistemas. Estamos cultural e cientificamente prontos para sermos modelares do desenvolvimento sustentável por meio dessa bioeconomia que começa no próprio AGRO sério e sustentável e segue para as biomoléculas e essências da biodiversidade de alto valor agregado, passando por frutas, peixes e fibras. Na agricultura existem investimentos e pesquisas que prometem em breve transformar boa parte do cultivo de escala (as monoculturas) em orgânicos e regenerativos, aumentando os ganhos econômicos enquanto resgatamos boa parte dos quase 40% dos ambientes alterados pela exploração até aqui, recuperando-os socioambientalmente. Isso não é sonho, é tão realidade quanto os drones que fiscalizam as lavouras empresariais no interior, as pesquisas genéticas da Embrapa com seus parceiros, a demanda por nosso AGRO mundo afora ou a boa saúde ambiental relativa do Brasil.

O Brasil contemporâneo aprofundou a dissintonia entre o país real e o virtual e, por isso, se perde numa confusão estratégica entre as dificuldades e as oportunidades que se apresentam, gerando ignorância e pré-conceito, como a que se abate sobre o AGRO. Tão grave quanto às chamadas “fake news” que dissimulam, é a má informação que provoca o desconhecimento “consolidado” ou a meia verdade que constrói um perverso simulacro do entendimento real. Isso é, em parte, o que explica o fato de ainda não estarmos liderando o desenvolvimento sustentável, a partir do alinhamento dos ativos naturais do país com a força empresarial do nosso agronegócio e do resto da economia, diante de um mundo que clama por isso, sobretudo em meio a uma grave pandemia e a busca por um “novo normal”. Precisamos conhecer melhor o AGRO e admirá-lo pelo legado que nos trouxe até aqui, inclusive nos dando a chance de sermos protagonistas do novo normal econômico com a bioeconomia que alavanca a riqueza socioambiental para o poderio do desenvolvimento, sustentavelmente. O “Jeca Tatú”, o personagem caipira, ignorante estereotipado do interior se mudou para a cidade, na forma de um negativista que despreza seu passado AGRO não enxergando que é alí que está o grande caminho moderno para o Brasil. Precisamos re-educar o Jeca urbano, quanto à bioeconomia que já nasceu no nosso agronegócio sério para nos olharmos com admiração e perspectiva no espelho. O AGRO é um presente para o futuro do Brasil.

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Titulo Original: O agro é um presente para o futuro do Brasil
Link original: https://jornal140.com/2020/06/24/o-agro-e-um-presente-para-o-futuro-do-brasil/
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